A nossa!quadra!

Carta do sócio em tempo de reflexão

Ser Ultra!
Há conceitos que “jogam” tanto com a nossa maneira de estar na vida que quando pretendemos explicar torna-se difícil desmitificá-los perante os outros. Isso verifica-se com a noção que tenho de Ultra. Ser ultra passa por um desafio que colocamos à vida: mais activa, sentida, arriscada, intensiva, excessiva, desmedida, mística e pouco convencional. Ser ultra assume o papel contestário e rejeita o conformismo do espectador que berra apenas no momento do golo. Se se tiver sorte de estar acompanhado por pessoas que pensam e sentem como nós, consegue-se promover naquele espaço um tipo especial de tensão, um excitamento agradável que desencadeia emoções fortes. E quem não as gosta de sentir? É aqui que se separa o “trigo do joio”, porque ser ultra não passa por um ideal programado para o efeito como as (algumas) claques querem fazer crer… Passa antes pelos nossos sentidos, atitudes e limites, que se alteram no decurso do nosso caminho consoante o tipo de perguntas que vamos fazendo à vida.
A imagem que vai passando do movimento ultra actual não nos favorece de todo. Por um lado temos a sociedade a acusarem-vos de viverem uma realidade violenta, mediática e sem lógica, por outro lado temos as claques a desmentir esse quadro marginalizante acusando os “outsiders” ao movimento, de os olhar, sistematicamente, com lentes graduadas de preconceitos e estereótipos, ao invés de olharem com “olhos de ver” as suas coreografias, os seus cânticos, enfim o espectáculo dentro do espectáculo.

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“É uma questão de mentalidades!” De quem? Nossas (ultras) ou deles (outsiders)? Como se consegue mostrar um lado 100% ultra quando o grupo na curva ergue as suas muralhas e se fecha a sete chaves? Sem deixarem, pelo menos, a porta entreaberta (não precisam de a escancarar) não sei como vão conseguir mostrar aquilo que dizemos que existe mas que só nós vimos, porque só nós é que estamos no grupo! Às vezes é preciso ter coragem para arriscar… E se não formos, nós, ultras, que estamos dentro do movimento, a acreditar que tudo é possível, quem vai ser? Os outros? Os que supostamente têm má vontade? Falta neste meio uma capacidade de reflexão e capacidade de compreensão.

Nós só podemos ser qualquer coisa a partir do momento em que podemos sentir qualquer coisa. Não se decide ser de um momento para o outro. Antes de decidirmos ser qualquer coisa, a aprendizagem é muito importante. Ser ultra não é ir só ao estádio fim-de-semana em fim-de-semana, é também intervir directamente na vida do clube. Ser parte activa e interveniente do clube. Cá dentro é preciso alma e espírito, é preciso amor àquilo que se está a fazer. E esse amor vem de dentro. Ultras de alma transformam tudo isto neles, porque vivem intensamente a curva, tudo o que faz parte dela, e que se encontra em cada milímetro da sua pele.
As cores da nossa equipa é a coisa mais sagrada para um ultra. A maioria de nós desejava ser enterrado nas curvas para a eternidade. Afinal foi lá que passámos os melhores anos da nossa vida. É preciso saber acreditar. O que faz o espírito de uma claque são aqueles que fim de semana em fim de semana estão onde quer que esteja o seu clube. O espírito vem daí, das viagens, do que se passa juntos, da experiência de terem que ser uma massa humana para resistir aos inúmeros obstáculos que se vai encontrando pelo caminho. É aí que a claque encontra a sua força, o seu mito. Uma claque faz-se fora do estádio e não dentro. O que interessa ter 1000 ultras em casa, quando nos estádios fora não se consegue reunir nem 30 pessoas? A incoerência torna-se coesão, o barulho transforma-se no poder da voz e os que eram muitos tornam-se “feras selvagens” que avançam para o seu alvo com uma determinação inquebrável e basta que um de nós – só um de nós – liberte uma faisca de paixão para que tudo se electrifique. A febre depressa contagia, fazendo-nos cair no delírio de viver a vida muito à nossa maneira. O verdadeiro ideário alimenta-se de projectos e promessas de palavras e ideias. Todo o espírito porque se rege é omnipresente e omnipotente. É um estar perto do misticismo que nos faz ser felizes, sempre, apesar de tudo e acima de tudo, e o resto são pequenos detalhes que pertencem ao mundo dos comuns adeptos (mortais). O futuro do movimento ultrá não depende da politica, mas sim da cultura de cada país, das experiências de cada um e do que no futuro irá acontecer, ou seja: nós ultras temos na nossa mão o futuro do nosso movimento e ninguém tem mais esse poder. Não posso deixar de reconhecer, que nos dias de hoje existe um elitismo no movimento ultra português. Existe uma tendência de que este movimento funciona num circuito de catedrais que ditam o que é que se deve fazer e o que é uma claque. Ou seja, há claques que ditam e estabelecem entre si, mais ou menos consciente, o bitaite para se ser um ultrà. Contudo, o movimento ultra português só tem a ganhar consoante a versatilidade e identidade que cada um dos projectos (claques) têm. Todos os elementos de uma claque são manipuláveis. Há um lado irracional que os lideres e os pseudo-lideres despertam nas massas. As grandes emoções colectivas impedem as pessoas de pensar.

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O ultra moderno gosta de abrir lojas,de tornar o futebol e a claque num negocio, lançar cds, de aparecer na t.v. para publicidade , de se auto-financiar com lucros da claque, de se influenciar politicamente por modas, de ameaçar pela net, de fazer e acontecer e vir logo vangloriar-se para a mesma internet… Se ser ultra é sinónimo de grandes laços de amizade, companheirismo, fidelidade e dedicação, então definitivamente os Ultras modernos estão a perde-lo, no entanto a nova geração de ultras tem dificuldade em aceitar as hierarquias e a antiguidade, para além de serem mais exibicionistas. Aqui somos ultras, e aprendemos todos os dias, fim de semana após fim de semana! E assim termina uma ligeira descrição do mundo Ultra, algo impossível de descrever por palavras! Sou Sporting por amor e Directivo Ultra XXI por ideal.
Organiza-te o Sporting precisa de nós.

S S O

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